Coletivo de mulheres lidera movimento contra o machismo no tradicionalismo gaúcho

155 mulheres atuantes no setor cultural do Rio Grande do Sul se uniram em uma iniciativa contra a homogeneização da identidade gaúcha. O Movimento Peleia Braba propõe a contestação histórico-cultural da cultura tradicionalista, tipicamente representada pela figura do patrão, homem rígido e aguerrido. O coletivo, por sua vez, quer olhar para as mãos invisibilizadas na construção da história do estado: as negras, indígenas, quilombolas, camponesas, periféricas, fronteiriças e populares.
Distante da prenda, parceira de dança do peão nos Centros de Tradições Gaúchas (CTGs), a luz é direcionada às demais identidades femininas que formam a identidade sul-rio-grandense. “Nós mulheres, que ajudamos a construir, somos relegadas a um papel meramente decorativo nesse contexto gaúcho e, estamos reivindicando, junto de outras minorias, o nosso papel na construção deste estado”, comenta Cris Cubas, produtora cultura e uma das idealizadoras do Peleia Braba.
O movimento nasceu de uma determinação judicial que deliberou a proibição de veiculação de uma paródia da música “Céu, Sol, Sul, Terra e Cor”, composta pelo cantor nativista Jader Moreci Teixeira, conhecido como Leonardo. De autoria das musicistas e compositoras Clarissa Ferreira e Ana Matielo, a paródia se apropriava da melodia da canção gauchesca para veicular uma mensagem em defesa da libertação do corpo e da identidade femininos. A defesa das cantoras recorreu da decisão judicial, sustentando que a paródia é uma manifestação artística em conformidade com a legislação.
Além de se opor ao episódio, classificado pelo movimento como censura, o Peleia Braba também denuncia a destinação prioritária de recursos públicos da Secretaria do Estado da Cultura (Sedac) a CTGs. Editais como o Avançar Tchê – premiação de R$ 2 milhões distribuídos entre 100 unidades tradicionalistas – e o Programa CTG na Escola – que financia 180 projetos de caráter tradicionalista e educacional em escolas da rede pública ou de educação especial e APAEs, promovidos por 131 CTGs – destinam mais de R$ 4 milhões somente para CTGs. Demais categorias culturais, como a música, as artes cênicas e a literatura, estão divididas em editais diversos.
Junto disso, o movimento afirma que os centros tradicionalistas também podem participar dos editais Cultura Viva e Cultura Popular que, segundo Cris, deveriam ser voltados à “cultura de base, de comunidades periféricas, ribeirinhas indígenas, pessoas que nunca tiveram acesso a recursos”. Já o manifesto declara que “o grupo cobra uma partilha justa dos recursos públicos, afirmando que a cultura gaúcha é muito mais ampla do que os moldes de um CTG e que territórios historicamente vulnerabilizados dependem do fomento para criar, existir e resistir”.
Os espaços de repercussão da cultura tradicionalista, contudo, não precisam ser contraditórios à ampliação do debate inclusivo, defende Cris. “É muito importante a gente entender que as culturas se atualizam com o tempo”, diz ela. “Elas precisam olhar para o presente e dar continuidade ao futuro.
Médicas, terapeutas, professoras, produtoras culturais, musicistas, autoras, artistas e mulheres de muitos outros segmentos construíram juntas o Movimento Peleia Braba na tentativa de olhar para a cultura sul-rio-grandense a partir dos seus olhos. “O Brasil conhece o Rio Grande do Sul por essa figura do homem branco de bigode e de chapéu. Mas a gente sabe que as mulheres negras e indígenas são figuras basilares da nossa cultura”, diz Cris. “A gente está numa peleia e quer ensinar aqueles que estão no Rio Grande do Sul e que não sabem que a sua cultura foi apagada”, completa.


